Encontro reúne veteranos e novos extensionistas antes do início das atividades em campo e destaca desafios no sistema prisional e em outras populações de risco
Antes de iniciarem as atividades em campo, estudantes veteranos e novos extensionistas participaram de um encontro de capacitação voltado ao enfrentamento da tuberculose em Governador Valadares. A iniciativa marca o início de mais um ciclo de atuação do projeto de extensão da UNIVALE, que une ensino, pesquisa e assistência direta à população, com foco especial em grupos em situação de vulnerabilidade.

Durante o encontro, os participantes receberam orientações sobre a doença, estratégias de abordagem e acompanhamento dos pacientes, além de conhecerem a realidade dos locais onde irão atuar, como o sistema prisional e espaços frequentados por pessoas em situação de rua. A proposta é preparar os estudantes não apenas tecnicamente, mas também humanizar o olhar diante das condições sociais que influenciam diretamente na transmissão e no tratamento da tuberculose.
A doença, causada por uma bactéria e transmitida de pessoa para pessoa, ainda representa um importante desafio de saúde pública. De acordo com pesquisa desenvolvida pela UNIVALE em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, Governador Valadares registrou 161 novos casos em 2023, com uma taxa de incidência de 62,6 por 100 mil habitantes, quase o dobro da média nacional, que foi de 37 por 100 mil habitantes no mesmo período. Outro dado preocupante aponta que cerca de 88% dos pacientes possuem algum fator de risco para abandono/interrupção do tratamento.
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Esta parceria ensino-serviço-comunidade também envolve a Secretaria Municipal de Saúde de Governador Valadares, através do Centro de Referência em Doenças Endêmicas e Programas Especiais (Creden-pes) e do Departamento de Vigilância em Saúde. É importante pois amplia o cuidado de pessoas vulneráveis com tuberculose, fortalecendo o Sistema Único de Saúde municipal. De acordo com a técnica em enfermagem Antiesca Santos, profissional do Creden-pes que atua no projeto, uma das vantagens da iniciativa é a oportunidade de troca de saberes entre os profissionais do SUS, a equipe de saúde prisional e os estudantes extensionistas, tudo em busca de promover cuidado humanizado, ético e integral. “Juntos experimentamos, na prática, a realidade e os desafios de cuidar dos privados de liberdade com Tuberculose.”
Para a professora e líder do Núcleo de Estudo, Pesquisa e Extensão em Tuberculose (Nepet), Flávia Rodrigues Pereira, compreender a tuberculose vai além do aspecto clínico. “A tuberculose é uma doença que tem relação direta com as condições de vida das pessoas. Ela envolve fatores sociais, como moradia, alimentação, acesso à saúde e até questões como uso de álcool e outras drogas. Tudo isso impacta diretamente no tratamento e na possibilidade de cura”, explica.
Segundo a professora Katiuscia Cardoso Rodrigues, coordenadora do projeto de extensão, são duas as frentes principais: a assistência direta aos pacientes e a formação contínua de profissionais e estudantes. “Além do atendimento, a gente também trabalha com educação em saúde e formação permanente. É um processo que envolve estudo, pesquisa e atuação prática, sempre com o objetivo de reduzir a transmissão e garantir que os usuários concluam o tratamento”, destaca.
Extensão na prática: desafios e impactos no sistema prisional
Um dos principais cenários de atuação dos extensionistas é o sistema prisional do município, onde a realidade impõe desafios significativos. Atualmente, a unidade conta com 708 detentos, em um contexto marcado pela superlotação e alta rotatividade.

A subdiretora de Humanização do Atendimento Prisional, Bruna Alves da Silva Vidal, ressalta que essas condições favorecem a disseminação da doença. “Hoje, no sistema prisional, como temos casos de hiperlotação, fica difícil manter o distanciamento. Muitas vezes, celas que deveriam comportar um número específico de pessoas acabam tendo o dobro ou até o triplo. Isso facilita muito a contaminação”, afirma.
Ela também chama atenção para a rotatividade dos detentos, que dificulta o controle da doença. “São presos provisórios, que entram e saem com frequência. Às vezes, ficam um ou dois dias, mas isso já pode ser suficiente para transmitir a doença. E quando saem, muitos interrompem o tratamento, que precisa durar pelo menos seis meses. Se passam mais de 30 dias sem tomar a medicação, é necessário começar tudo de novo”, explica.
Outro ponto crítico é a falta de profissionais de saúde na unidade. “Hoje temos apenas um enfermeiro e um técnico de enfermagem para atender toda a demanda. O médico atende só duas vezes por semana. É uma equipe muito reduzida para a quantidade de pessoas e para a diversidade de problemas de saúde que enfrentamos”, completa Bruna.
Apesar das dificuldades, ela destaca os resultados positivos da parceria com a universidade. “Desde que os estudantes começaram a atuar conosco, os números têm caído. Hoje, a maioria dos casos que acompanhamos são de continuidade de tratamento, o que mostra que o trabalho está fazendo diferença”, avalia.
Entre os extensionistas, a experiência é vista como uma oportunidade de aprendizado e transformação. O estudante Hadson Campos, que ingressa agora no projeto, conta que buscou a extensão para ampliar sua vivência. “Eu já trabalho com populações acometidas por tuberculose, mas nunca tive contato com pessoas privadas de liberdade ou em outras situações de vulnerabilidade. Quero ampliar esse olhar e entender melhor essas realidades”, afirma.

Já a estudante de medicina Maria Isabel, que participou do projeto ao longo do último ano, destaca a intensidade da experiência. “A gente vai ao presídio a cada 15 dias, acompanha pacientes desde o início do tratamento e também aqueles que já estavam em acompanhamento. É uma realidade muito diferente do ambulatório ou hospital”, relata.
Ela lembra que o contato inicial com o ambiente causou impacto. “No começo dá um certo medo, é um ambiente diferente, mas depois a gente se adapta. O que mais chama atenção é a vulnerabilidade dessas pessoas e como isso interfere no tratamento. É um aprendizado enorme, tanto profissional quanto humano”, completa.
A capacitação, portanto, representa mais do que um preparo técnico. É o início de uma jornada que conecta conhecimento acadêmico à realidade social do município, fortalecendo ações que buscam não apenas tratar a tuberculose, mas também enfrentar as desigualdades que sustentam a doença.









