Mais visível na infância, o transtorno do espectro autista começa a ser reconhecido também em adultos, revelando histórias de adaptação, cansaço e, finalmente, entendimento
Raíssa Ferreira aprendeu cedo a observar o mundo antes de participar dele. Na escola, copiava jeitos, repetia falas, tentava entender regras que ninguém explicava. Por muito tempo, achou que todo mundo fazia o mesmo esforço. “Desde criança eu me sentia diferente. Mas nunca imaginei que pudesse ser autismo”, conta.

Hoje, aos 32 anos, já formada e com a vida organizada, ela olha para trás e consegue dar nome ao que sempre sentiu. O diagnóstico veio só no ano passado, mas trouxe junto uma espécie de tradução da própria história.
Funcionária da UNIVALE, assim como os outros personagens desta reportagem, Raíssa faz parte de um ambiente institucional que adota políticas de inclusão e valorização de pessoas com deficiência (PCDs), um movimento que tem contribuído para dar visibilidade e acolhimento a diferentes formas de existir no mundo do trabalho.
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Raíssa sempre foi vista como comunicativa e capaz. Mas, por dentro, as relações exigiam um esforço constante. Conversas rasas a cansavam, mudanças de plano incomodavam, e a necessidade de manter tudo sob controle era uma forma de se sentir segura. “Eu consigo conversar, mas tenho dificuldade em manter relações. Cansa”, resume.
Durante muito tempo, tudo isso foi interpretado apenas como traço de personalidade.
Quando o nome chega, a história muda
Para a psicóloga Luana Barretos, o que tem mudado não é o autismo em si, mas o olhar sobre ele. “Essas pessoas sempre estiveram aí. O que acontece agora é que elas começam a se reconhecer”, explica.

Segundo ela, muitos adultos passaram a vida inteira sem entender por que certas situações eram tão difíceis. Sem diagnóstico, é comum que o sofrimento apareça de outras formas, como ansiedade, cansaço extremo ou dificuldades nos relacionamentos. “O autismo não deixa de existir porque não foi identificado. Só fica mais difícil de compreender”, diz.
Quando o diagnóstico chega, ele costuma trazer alívio. Não porque resolve tudo, mas porque organiza. “Muita gente sente que, finalmente, as peças se encaixam.”
Mas esse entendimento também vem acompanhado de um movimento interno: revisitar o passado com novos olhos, dar outro sentido a lembranças antigas, repensar a própria trajetória.
Um olhar que veio de fora
Foi assim com o jornalista Thiago Coelho. Ele não procurava um diagnóstico para si. O ponto de partida foram as filhas, ambas dentro do espectro. “Com o diagnóstico delas, comecei a buscar informação. E muita coisa começou a fazer sentido”, conta.

Também funcionário da UNIVALE, Thiago faz parte de um contexto profissional que vem ampliando o debate sobre inclusão e diversidade, favorecendo o reconhecimento de perfis antes invisibilizados.
Situações que antes pareciam apenas parte do seu jeito ganharam outro significado: a dificuldade em interações sociais, o hábito de se alongar demais nas falas, momentos de isolamento. Já em terapia, decidiu investigar mais a fundo. Veio então a confirmação do autismo, junto com o diagnóstico de TDAH. “O espectro não vem sozinho, na maioria das vezes”, diz.
Histórias que começam a aparecer
Os caminhos de Raíssa e Thiago são diferentes, mas se encontram em um ponto: o reconhecimento tardio. Ao lado deles, profissionais como Luana, também vinculada à UNIVALE, ajudam a construir um ambiente mais atento às diferenças e às necessidades de cada indivíduo.
Durante muito tempo, o autismo foi associado quase exclusivamente à infância e a sinais mais evidentes. Isso deixou de fora muitas pessoas que cresceram sem diagnóstico e, muitas vezes, sem explicação para o que sentiam.
Hoje, essas histórias começam a aparecer. Não como algo novo, mas como algo que finalmente ganha nome.
Falar sobre autismo na vida adulta é, acima de tudo, abrir espaço para que essas trajetórias sejam compreendidas com mais cuidado. Porque, para muita gente, o diagnóstico não é um começo. É o momento em que a vida, pela primeira vez, passa a fazer sentido.









