Palestras do MidiaLab com Camilla Carvalho e George Gonçalves discutem o papel do design inclusivo e técnicas de oratória como ferramentas de engajamento e saúde vocal
Por Iwry Caldeira, 6° período de Jornalismo e Matheus Mota, 5° período de Publicidade e Propaganda
Na noite de segunda-feira (19), durante a abertura do MídiaLab II, dos cursos de Comunicação da UNIVALE, a publicitária, escritora e consultora de acessibilidade, Camilla Carvalho, conduziu uma reflexão sobre acessibilidade, inteligência artificial e os novos caminhos da comunicação. Ao compartilhar aspectos de sua trajetória pessoal, incluindo sua experiência de se tornar tetraplégica aos 29 anos, a escritora se apresentou fazendo uma autodescrição e iniciou sua participação, durante o evento, com a pergunta “Quem ficou de fora da criação?”
“Não existe um manual gessado ou uma única forma correta de fazer uma autodescrição; as técnicas se expandem justamente para garantir que a mensagem chegue a todas as pessoas de maneira autônoma e plural”, destaca Camilla. Segundo a palestrante do MidiaLab, não existe uma única maneira correta de fazer uma autodescrição, as técnicas se expandem para chegar a todas as pessoas. E é assim, de forma coletiva, como acontece em toda comunicação inclusiva.
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Outro destaque da abertura do MidiaLab foi a apresentação do livro “Um Tour pela Cidade com a Turma UAI”, idealizado para crianças do 5º ano do ensino fundamental. A obra alinha-se aos estudos de psicologia do desenvolvimento infantil, como os de Jean Piaget e Lawrence Kohlberg, sobre a faixa etária de 10 a 11 anos, na qual o indivíduo transita para o pensamento formal e para a autonomia moral. Essa abordagem teórica sobre a infância contribuiu, posteriormente, para consolidar a Educação Inclusiva e a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) no Brasil. O livro, que apresenta aspectos da cidade de Governador Valadares e foi desenvolvido em diferentes formatos acessíveis, está disponível na versão em Libras e audiobook.

Inteligência artificial e inclusão combinam?
Camilla Carvalho também abordou na abertura do MidiaLab o uso da inteligência artificial no processo de criação do livro, especialmente na produção das ilustrações. A palestrante explicou que a utilização da ferramenta não eliminou a participação humana. O repertório, a intenção, a direção de arte, a curadoria e o refinamento continuaram dependendo de decisões humanas, enquanto a inteligência artificial foi utilizada principalmente na etapa de geração e prototipagem. A reflexão central, proposta por ela durante a palestra, foi que não se trata de “demonizar” a tecnologia, mas de compreender como utilizá-la de maneira responsável, consciente e alinhada aos objetivos do projeto.
O professor Ramon Assis, um dos organizadores do MidiaLab, observa que a acessibilidade costuma ser tratada como uma adaptação posterior, realizada quando um material já está pronto. “Quando uma mensagem depende de enxergar detalhes, distinguir cores, ouvir um áudio, parte do público pode ficar de fora. A barreira pode estar no projeto e pode ter sido criada antes mesmo do layout”, afirmou Ramon, evidenciando a necessidade de mudar essa lógica, incorporando a acessibilidade desde o início do processo criativo para compreender melhor as barreiras existentes e desenvolver soluções que realmente atendam às necessidades do público.
Criada em 1996 pela agência DM9DDB, em parceria com o Instituto MetaSocial, a campanha “Ser diferente é normal” foi citada por Camilla na abertura do MidiaLab para exemplificar como determinadas abordagens podem ser questionadas atualmente. Segundo a reflexão apresentada, mesmo iniciativas criadas com boas intenções podem reforçar preconceitos quando romantizam a deficiência, infantilizam as pessoas ou as colocam em uma posição de heroísmo. “A própria ideia de definir quem é ou não ‘normal’ merece ser problematizada, pois pode manter a divisão entre aqueles considerados dentro e fora de um padrão”, completa a publicitária.
A palestrante demonstrou que, para produzir uma comunicação acessível, é preciso rever padrões, questionar representações e reconhecer as pessoas com deficiência como participantes ativas da sociedade e dos processos de criação. Para os profissionais de Comunicação, isso significa desenvolver projetos que considerem a diversidade desde o planejamento, em vez de tentar corrigir posteriormente aquilo que não foi pensado para todos.
George Gonçalves: a oratória a favor da inclusão
“O Brasil possui 14,4 milhões de pessoas com deficiência, equivalentes a 7,3% da população com dois anos ou mais, segundo dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE. Além disso, 29% dos brasileiros são considerados analfabetos funcionais, conforme apontado pelo Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf)”. Esses dados foram citados na abertura do MidiaLab pelo jornalista e fonoaudiólogo George Gonçalves ao demonstrar que a comunicação precisa considerar diferentes condições de acesso e compreensão das informações. “Uma mensagem pode estar gramaticalmente correta e, ainda assim, ser difícil de compreender quando utiliza linguagem excessivamente técnica, frases complexas ou uma organização pouco clara”, afirma George.

O palestrante, professor do curso de Fonoaudiologia da UNIVALE, ressaltou que a oratória também pode ser entendida como uma importante ferramenta de inclusão. A clareza, a organização das ideias e a adequação da linguagem ao público contribuem para que a informação seja compreendida por um número maior de pessoas. Para George, a voz nunca chega desacompanhada. Antes que o sentido de uma frase se consolide na mente de quem ouve, a frequência do timbre, a intensidade do volume e o ritmo da fala já criam no imaginário do público um retrato invisível de quem fala ao microfone.
No palco virtual do MídiaLab II, George conduziu a palestra sobre oratória e performance, demonstrando como a comunicação falada é, em essência, um ato de inclusão e projeção social.
Nos comentários da transmissão, a professora Deborah Vieira acrescentou o exemplo de Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra britânica, que recorreu ao acompanhamento fonoaudiológico para modificar o tom de sua voz, tornando-a mais grave, e assim conquistar maior imponência e respeito em um ambiente político predominantemente masculino.
A palestra também abordou o loudness, que trata de um conceito fonoaudiológico relacionado à percepção da intensidade sonora e ao volume da voz. Segundo George, a variação consciente da intensidade vocal é um recurso decisivo, pois a velocidade da fala produz efeitos distintos no público e deve ser ajustada estrategicamente.
Durante a transmissão do MidiaLab, George sugeriu que variações de entonação e ritmo aumentam em até 40% a retenção da mensagem em palestras e transmissões educativas, enquanto falas monotonamente aceleradas geram dispersão do público nos primeiros cinco minutos de escuta. “Eu estou utilizando recursos de modulação de voz exatamente aqui e agora, porque sei que estou disputando a atenção de vocês com as notificações do celular, com as abas abertas no navegador e com a rotina de casa. A comunicação hoje não acontece em um aquário; se a gente não alternar o ritmo e a intensidade, o ouvinte simplesmente desconecta”, ressaltou. “A gente precisa pensar do ponto de vista não somente da comunicação, mas como uma questão de saúde mesmo”, completou.
Para os participantes ativos no chat ao vivo do MidiaLab no YouTube, um dos principais aprendizados ressaltados foi perceber que a exclusão nem sempre ocorre de maneira intencional, estando muitas vezes mascarada em decisões cotidianas de planejamento, linguagem ou design.
A aluna Isabela provocou uma reflexão no MidiaLab sobre a aplicação desses conceitos no debate público ao sugerir que “seria legal depois fazer algo sobre os comportamentos dos candidatos na política, falar sobre crise de oratória e até linguagem corporal nesse meio, analisando por um olhar de comunicadores”. Essa perspectiva sobre o mercado futuro conecta-se ao alerta de Camilla Gonçalves, que apontou que “pensar que amanhã somos nós, alunos de hoje, que estaremos produzindo o conteúdo que chega à população reforça como a acessibilidade e a clareza precisam ser premissas desde a faculdade”.












