Racismo estrutural e saúde mental: quando a vivência vira pesquisa e resistência
Quando a escrita nasce da vivência, da escuta e da urgência de transformar realidades, ela ganha força própria. Foi assim que Érika Benigna e Sabrina Bertolini, integrantes do Coletivo Abayomi, construíram o capítulo “Racismo Recreativo, adoecimento do Corpo-Território e o aquilombamento como epistemologia de cuidado”, publicado no livro Encruzilhadas Culturais: Direitos Humanos & Saúde Mental das Populações Negras no Brasil – Volume 2.

Lançada no último dia 25 de abril, em Belo Horizonte, a obra reúne reflexões interdisciplinares sobre racismo, direitos humanos e saúde mental da população negra. No capítulo, as autoras analisam como o chamado racismo recreativo, violência disfarçada de piada ou brincadeira, impacta diretamente a saúde mental da população negra.
“Nosso capítulo parte da compreensão de que o racismo recreativo não é uma simples brincadeira. Ele produz marcas profundas, afeta a autoestima, a subjetividade e a forma como as pessoas negras ocupam os espaços. Mas também quisemos mostrar que existem caminhos possíveis de cuidado e reconstrução coletiva, e um deles é justamente o aquilombamento, esse movimento de pertencimento, acolhimento e resistência”, explica Sabrina Bertolini.
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Para Érika, o texto foi construído a partir de experiências concretas e trajetórias que se cruzam dentro e fora da academia. “Essa escrita nasce de muitos lugares ao mesmo tempo: da pesquisa acadêmica, da minha vivência como professora, das rodas de conversa com meninas negras, das escutas que acontecem dentro do Coletivo Abayomi e também das inquietações que carregamos no cotidiano. É um capítulo que tem teoria, mas que também tem vida, tem território e tem memória”, afirma Érika, egressa do mestrado em Gestão Integrada do Território (GIT) da UNIVALE, e ainda pesquisadora ligada à universidade, com trabalhos vinculados ao Núcleo Interdisciplinar de Educação, Saúde e Direitos (Niesd).
Da inquietação ao reconhecimento nacional
A participação no livro começou ainda na fase de edital. Ao todo, 86 trabalhos foram inscritos, mas apenas 18 selecionados, o que evidencia o nível de concorrência e o caráter qualificado da publicação.
Érika já conhecia o projeto editorial. Em 2025, participou do primeiro volume com um capítulo sobre corpo-território. Quando a nova chamada foi aberta, percebeu a oportunidade de aprofundar debates que já vinha desenvolvendo em sua trajetória acadêmica e social.

“Quando saiu o novo edital, eu senti que esse tema precisava estar ali. Já venho pesquisando essas questões há alguns anos e percebia como o racismo recreativo aparecia nas escolas, nas falas de jovens e em diferentes espaços sociais. Era importante transformar essas observações em produção científica e ampliar essa discussão para outros públicos”, conta.
Foi então que convidou Sabrina para a escrita conjunta. Psicóloga clínica e educacional, ela acrescentou ao trabalho o olhar voltado à saúde mental e aos impactos emocionais provocados pelo racismo.
“A Érika já possui uma caminhada muito consistente dentro desse debate, especialmente na educação e nas pesquisas sobre raça e gênero. Quando ela me convidou, pensei em como eu poderia contribuir a partir da psicologia, olhando para os efeitos subjetivos dessas violências. Pensar ansiedade, sofrimento psíquico, silenciamento e também possibilidades de cuidado foi o que me moveu nesse processo”, explica Sabrina.
As duas também se inspiraram em experiências vividas no Coletivo Abayomi e nas conversas com jovens participantes de projetos sociais e educacionais. O resultado foi um capítulo construído a muitas mãos, com base em escuta sensível, produção acadêmica e compromisso político.
“Escrevemos com muito carinho e responsabilidade. Queríamos que quem lesse o texto se reconhecesse nele, entendesse que essas dores não são individuais e percebesse que existem formas coletivas de enfrentamento. Foi uma escrita cuidadosa, madura e profundamente afetiva”, destaca Érika.
Um livro que reúne ciência, memória e resistência
Organizado por Seu João Xavier, o livro chega ao segundo volume, consolidando-se como espaço importante de produção crítica sobre justiça racial no Brasil. A publicação reúne diferentes áreas do conhecimento em torno de um tema urgente: os efeitos do racismo na saúde mental da população negra e os caminhos possíveis para superá-los.

Já Sabrina celebra a oportunidade de estrear em uma coletânea de alcance nacional ao lado de uma parceira de trajetória. “Esse capítulo nasce da amizade, da militância, da troca intelectual e do cuidado entre mulheres negras. Nós nos fortalecemos mutuamente, nos escutamos e construímos juntas. Acho que isso aparece em cada página do texto. Não escrevemos apenas sobre cuidado coletivo, nós vivemos esse cuidado durante todo o processo”, diz.
Para Érika, retornar à obra em uma nova edição tem significado especial. “Participar novamente desse projeto é motivo de muito orgulho. No primeiro volume, escrevi sobre corpo-território. Agora, voltar em parceria com Sabrina, trazendo outro debate tão necessário, mostra que nossa produção segue viva, amadurecendo e alcançando novos espaços. Isso também fortalece a presença de pesquisadoras negras nesses lugares”, afirma.










